Meus avós

Considero-me uma pessoa de poucas lembranças de infância. Mas as que tenho são suficientes para saber que tive uma infância feliz e avós maravilhosos.

Minha memória é também mais olfativa do que outra coisa.

Lembro do sabor da água do filtro de barro da casa dos meus avós. Só existe em um lugar o mesmo sabor, na casa da tia Rosana, uma das filhas dos meus avós Biga e Roque.

Nunca fui fã de macarrão. Mas não esqueço das macarronadas famosas de Dona Biga. Os almoços de domingo com toda família reunida. E do meu avô trazendo sorvete Tablito para os netos antes do almoço e minha avó esbravejando “Roqueee, vai dar sorvete para as crianças!”.

Na casa deles tinham dois modelos de copos de plástico inesquecíveis. Um era o amarelo e o outro era o azul – o meu preferido. Se eu fecho os olhos, volto no tempo por um segundo e consigo sentir as borbulhas da coca-cola espirrando no meu nariz. Essa sensação, aquele cheirinho e gosto do refrigerante mais amado no mundo, o copo azul é um conjunto das lembranças mais fortes que tenho da casa dos meus avós paternos.

Eu poderia ainda falar da personalidade de cada um. Mas cada vez mais minha lembrança fica curta. Meu avô Roque era uma pessoa sábia, adorava ler, tinha um escritório cheio de livros, cujo cheiro também tenho lembrança. Vivia falando da importância de ler. E guardo dele dois presentes muito especiais, meus pequenos tesouros. Um atlas antigo com dedicatória dele e sua assinatura – que muitos acham a minha parecida com a dele (mas juro que não o plagiei). O outro é um recorte de jornal de uma matéria sobre meu avô materno, o Caxambu, que meu avô Roque teve a delicadeza de me dar também com dedicatória. Esse virou um quadro que estampa uma parede da minha sala.

Ah, não posso esquecer do pingente de moeda de 5 cruzeiros. Eles mandaram fazer para cada neta. Tenho a minha até hoje e durante minha gravidez foi meio que meu amuleto da sorte, não tirava.

Meu avô Caxambu, que nos meus 15 anos me deu um anel maravilhoso. Era enorme e eu só deixava guardado. Até que depois de seu falecimento, resolvi mandar diminuir e usar. Meu avô materno sempre fazia uma festa de aniversário muito elegante. Todo ano eu ficava ansiosa para comer a melhor bolinha de queijo do mundo. Igual aquelas, nunca mais comi. Meu avô Caxambu, ex-goleiro do São Paulo Futebol Clube e da Portuguesa, era todo garboso, fino, galanteadooooor!

Quando ele faleceu, lembro de estar no velório e ao me virar vejo dois velhinhos lindos descendo do táxi. Meus avós Roque e Biga…

Minha avó Biga hoje vive numa casa de repouso. Ela tem Alzheimer. Já está avançado e no ano passado ela ficou internada, teve problemas respiratórios, enfim…fomos visitá-las no domingo passado e senti uma tristeza imensa. Benjamin, que já entende mais as coisas ao redor, ficou impressionado. Não tirei fotos. Não quis registro. Quero guardar a lembrança de quando levei Benjamin para conhecê-la.

foto

Essa foto já tem quase dois anos. Quando minha avó viu Benjamin, eu a vi lúcida e feliz. Ele começou a choramingar e ela disse “o que esse menino está chorando? me dá ele aqui”. Era a Biga que eu conhecia. Foi a coisa mais incrível. Benjamin foi no colo dela, parou de chorar e ela sorria balançando a perna como que ninando seu bisneto.

Pausa.

Acho que vou terminar por aqui.

Avós. Seres especiais. Eles realmente adoçam a nossa vida.

E eu daria tudo pra viver só mais um domingo da minha infância com eles….

Um abraço em todos os avós.

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Sonhos, Morte e um livro

Eu nunca sonho, ou melhor, se é verdade que todo mundo sonha todas as noites, eu nunca lembro dos meus sonhos. São raros os que lembro e esses são sempre os mais negativos.

Outro dia tive um sonho esquisito. Eu e marido tínhamos que fazer um exame de DNA no Benjamin. O mais esquisito é que todo mundo queria pegar o Benjamin como se ele fosse um ratinho de laboratório e eu tentava protegê-lo e fazer o exame secretamente, só eu, marido e Benzoca. O mais esquisito ainda era o motivo de realizar esse exame. Era algo como se tivessem descoberto que Benjamin não era nosso filho. O negócio me apavorava e por isso eu queria fazer o exame na surdina, pois eu temia que as pessoas estavam contra nós, queriam roubar o Benjamin de mim e, por isso, eles fossem forjar o resultado do exame. Além disso me atordoava pensar na hipótese dele não ser meu filho de sangue. Não porque ia ser colocado em xeque o amor que sinto por ele, porque na verdade o amor já estava construído. Mas em sonho, era estranho pensar que tudo o que via nele, pensando ser parte de mim e parte do marido, era na verdade um blefe. Mas mesmo assim eu não deixaria ninguém tirar ele de mim. Foi um sonho super confuso e estranho.

Aí dia desses, eu que não lembro dos meus sonhos e sempre senti falta do Benjamin neles, tive outro sonho com ele envolvido. Sonhei que a Morte me perseguia. Estranho é que eu não estava morrendo, estava literalmente sendo perseguida por ela. Eu nunca fui de pensar na morte ou de ter medo de morrer. Mas depois que tive o Benjamin a ideia de morrer não me agrada, passei a achar que morrer é algo de muito mau gosto. Uma das primeiras coisas que me ocorreu quando pensei na possibilidade de morrer e deixar meu Ben, foi o fato de que ninguém cuidaria do meu filho como eu, ninguém faria por ele o que eu seria capaz de fazer. Ninguém. Talvez só a minha mãe.

Ao longo desses dois anos de configuração mãe e filho, percebi que o motivo de não poder morrer virou uma lista infidável, principalmente por coisas que preciso ensinar ao meu filho. São tantas as coisas que preciso ensinar a ele…!

Preciso ensinar meu filho a andar de bicicleta sem rodinhas, a apreciar uma paisagem, a nadar (embora, eu não saiba), a escrever, a ler, preciso ensinar-lhe um (de preferência, vários) caminho(s), a escalar uma montanha, que viajar é melhor do que bens materiais, a ficar sozinho, apreciar sua companhia, respeito, a pisar na areia….preciso ensinar uma infinidade de coisas a ele.

E desculpa, se pareço egoísta, mas eu quero ser a responsável por ensinar  isso e muito mais para ele. Eu quero estar perto dele quando ele tomar o primeiro tombo tentando andar com a sua bicicleta sem rodinhas. Assim como eu quero estar ao seu lado quando ele pegar o equilíbrio e sair pedalando, vibrando de alegria, sentindo o vento batendo em seu rosto. Eu quero estar perto dele e presenciar cada tentativa e conquista dele.

E só de pensar tudo o que eu quero viver com ele ainda, eu sou tomada de emoção. Tem muita coisa boa para acontecer… coisas que mudam a gente como ser humano, coisas que podem fazer de nós pessoas melhores, coisas que a gente carrega pra sempre na memória afetiva. E eu quero fazer parte dessa memória do meu filho.

Assim como os filhos não deviam morrer antes dos pais, os pais não deveriam morrer sem antes ter passado tudo o que é de direito ao lado dos filhos. Essas poucas coisas que citei podem parecer que qualquer um pode ensinar aos filhos. E sim, os amigos, os tios, os avós podem ensinar-lhes essas e muitas outras coisas. Mas o trabalho de pai e mãe é diferente. Tem ensinamentos e, esses citados são só alguns que, em minha opinião, embora simples, são de deveres e direitos que só deveriam caber aos pais.

Sei que nesse dia do sonho esquisito, acordei decidida a dedicar parte do meu tempo a ensinar ao meu filho essas coisas que se guardam no coração. Talvez eu escrava um livro: “Coisas que preciso ensinar ao meu filho antes de morrer”. Quem sabe eu não morro enquanto não terminar o livro.