Entrevista especial com uma avó adorável

Ela tem nove netos e ressalta no início da conversa: tem uma cadeira de balanço, adora fazer crochê, tricô e bordar, mas não assumiu a imagem da famosa Dona Benta.

Começa o dia fazendo aula de balé clássico (todos os dias!!!), antes de ir para o computador escrever ou responder perguntas de jornalistas. Depois ela vai trabalhar em seu consultório onde atende até às 19:00 e só depois ela vai para cozinha fazer o jantar e se preparar para o programa da noite (que pode ser um concerto, um futebol ou um jantar entre amigos). Com todos esses afazeres, afirma: não é diferente de muitas outras avós que conhece.

Estou falando da psicanalista Lidia Aratangy Rosenberg, autora do Livro dos Avós – Na casa dos avós é sempre domingo?. Conversamos só por e-mail, mas a empatia foi grande. Lidia é daquelas pessoas que você tem vontade de conhecer e ficar horas proseando (e aprendendo!) com ela.

Lidia, por Ucha Aratangy

Lidia, por Ucha Aratangy

É com prazer enorme que compartilho com os leitores do Bossa Mãe, um trecho do nosso bate papo, onde ela dá uma lição sobre o relacionamento com os avós.

BM: Sempre que se fala em avó é comum surgir a ideia de uma senhora sentada fazendo tricô ou a lembrança dos almoços de domingo. Por que, mesmo com tantas mudanças, novos modelos de relacionamento, as avós continuam carregando imagem dos fazeres do passado?

LA: As avós não carregam esses estigmas, ainda que lhe sejam impostos. Elas estão bem diferentes disso e não se submetem a esses modelos. Mas parece que a publicidade, tão afoita em usar os mais recentes recursos da tecnologia em suas produções, é conservadora em seus modelos. Dê uma olhada nos comerciais do Dia das Mães: muitas mães ainda estão de avental e os produtos anunciados são (quase) todos do lar (eletrodomésticos, roupas de cama, mesa e banho e por aí vai). No Dia dos Pais, os anúncios são de carros, roupas esportivas… Nunca vi um anúncio de carros para as mães, nem de fogões para os pais, embora haja tanta (ou mais?) mulheres quanto homens pilotando carros, e muitos homens pilotando fogões.

A imagem da avó ainda é a da Dona Benta, criada por Lobato na década de 40: “…uma velhinha de mais de sessenta anos, com óculos de ouro na ponta do nariz e cestinha de costura ao colo” . O grifo é meu, porque acho que ele queria dizer que havia muito mais velhinhas de menos de sessenta anos! Hoje é mais provável encontrar avós nas academias de ginástica do que de cestinha de costura ao colo. Mas é mais fácil recorrer à imagem conhecida, sem avós imprevisíveis como as de carne e osso…

BM: Dizem que avós deseducam os netos e, em sua obra “Livro dos Avós – na casa dos avós é sempre domingo?”, vocês falam que na casa dos avós é um espaço de limites menos rígidos ou até diferentes do dos pais. Gostaria que me falasse um pouco sobre isso.

LA: Ter limites diferentes não significa ausência de limites. E os limites dos avós costumam ser menos rígidos do que os dos pais porque as avós já não estão preocupadas em demonstrar teorias pedagógicas, nem precisam provar que elas é que estão certas, e não as suas mães (como elas mesmas fizeram quando eram mães…). Essa ausência de preocupação ou de aderência a modelos permite um comportamento mais flexível.

Para as crianças, não há a menor dificuldade em saber que ambientes diferentes pedem comportamentos diferentes (ela já sabe que as regras da escola são diferentes das regras de casa, e que na casa do colega há regras diferentes das da casa dela). Essa é uma informação importantíssima para a vida da criança, que não vai se comportar da mesma maneira no estádio de futebol e na sala de concerto.

BM: Os pais muitas vezes esperam que os avós ajudem na formação da educação das crianças. Como diminuir essa expectativa dos pais?

LA: O problema não é a expectativa de parceria na educação – o que é, além de justo, inevitável -, mas a ideia de que essa ajuda deve ser da maneira como os pais querem que seja. Ora, a avó não é uma baby-sitter de luxo, ela tem um vínculo direto com seus netos, e tem o direito de educá-los também com o que ela acredita. O fato é que os valores dos pais e avós geralmente são os mesmos, o que difere é a maneira como cada um expressa e transmite esses valores – o que não tem muita importância, se pais e avós não estiverem tirando um braço-de-ferro para provar quem tem razão.

BM: E como os avós podem contribuir com a educação dos netos?

LA: Colocando com clareza seus pontos de vista e até mostrando as mudanças que ocorreram na educação, do tempo em que ela foi mãe até o presente, quando ela assiste a (sem crase!) a mãe que sua filha se tornou. A noção de que as coisas mudam com a passagem do tempo e de que as diferenças podem ser respeitadas são fundamentais para a educação. E é importante que as mmãees saibam que a maneira como elas lidam com suas mães, as avós de seus filhos, está ensinado um modelo de como lidar com as mães idosas, que eles repetirão mais tarde com suas mães. Ou seja: mães que caçoam das avós, que desrespeitam as avós de seus filhos estão cuspindo pra cima…

Acrescento que os avós são depositários da história da família e os únicos a poder transmitir esse relato em primeira mão.

BM: Qual a importância, a representatividade dos netos para os avós?

LA: Para os avós, os netos representam uma lufada de ar fresco, de alento e esperança num momento em que eles estão percebendo que sua importãncia diminui a cada dia. É claro que isso é sinal de que a vida deu certo, de que os filhos cresceram e são independentes, de que profissionalmente sua missão está cumprida – mas há um vazio e uma ansiedade sobre o que está por vir. A chegada dos netos lhes devolve uma autoimagem positiva, uma sensação de voltar a ser valorizado e importante.

Te conto um episódio.

O Théo (um dos netos, atualmente com 18 anos) tinha 4 anos numa noite em que, por circunstâncias que não vêm ao caso, dormimos eu e ele no mesmo quarto, numa casa em que pernoitávamos pela primeira vez. No meio da noite , ele me chama: Vovó, me dá a mão! Aqui está muito escuro! Eu, fazendo graça: E se eu te der a mão vai acender a luz? Ele, direto: Não vai acender a luz, mas fica mais claro quando você me dá a mão…

*

Linda, né?

Lidia Aratangy estará dia 26, ao vivo, no programa Encontro com a Fátima Bernardes, num especial sobre avós. Não percam!

#semanadosavós

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Post do Dia das Mães (por Roberto Piffer)

O Dia das Mães está chegando. E num blog materno isso significa que, possivelmente, a data mais importante do ano se aproxima. Clima de festa, felicidade no ar, mamãe pra lá, mamãe pra cá… Ééééé, neste domingo o foco é ela, a figura materna, nosso porto seguro, a rainha da casa! Crianças, preparem seus abraços, muitos e muitos beijos, almoço em família, presentes (importante!) – domingo será o dia delas.

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Mas vamos ao início de tudo, buscando na história. Descobri que o Dia das Mães começou a ser comemorado nos EUA, por volta de 1865. No Brasil, a data foi oficializada por Getúlio Vargas, o grande presidente de valor, a partir de 1932.

E para marcar este dia tão importante, de tantas homenagens e comemorações, preparamos para você uma doce entrevista com a mãe que é a alma deste blog. A mãe do Ben, a única, a ímpar, enfim, a melhor mãe que ele poderia ter… Gabis Miranda!

Bosso Pai: bom dia mãe do Ben, seja bem-vinda ao blog, sinta-se em casa…

Gabis Miranda: obrigada, mas confesso que fico meio nervosa em entrevistas.

BP: com a chegada do dia das mães, o que muda em você? O que esta época te inspira? E as homenagens, fazem a diferença?

GM: o dia das mães floresce os sentimentos da mãe, emotiva sensações, cria reflexões da vida, do futuro, do presente… nessa época a mãe percebe um pouco mais o grande valor que tem para a família e para a sociedade, nossa importância fica mais evidente. E toda homenagem reluz coisas boas, mas acho que não devem ficar restritas somente à essa época. A mãe deve ser lembrada sempre.

BP: e os presentes, tem relevância neste contexto?

GM: diante da grandiosidade do ato diário de ser mãe, o presente é pouco representativo. Mas ai de você se não for comprar um bem bonito com o Ben!

BP: sabemos que o Dia das Mães cria este ambiente de homenagens (muito justas por sinal), mas também traz uma avalanche de consumismo e toda uma enxurrada comercial junto. Como você vê esta realidade?

GM: o presente, às vezes, ocupa mais espaço do que a homenagem à mãe, e isso não deve acontecer. Nunca deixe de reconhecer os esforços que as mães fazem ou fizeram no dia a dia. Lembrar da mãe e abraçá-la é o melhor presente que você pode dar. Mas se o presente que você comprou for caro, não tem problema… dê muitos abraços na sua mãe ou mãe dos seus filhos que ela vai amar.

BP: Qual o sabor de ser mãe?

GM: ser mãe tem sabor daquelas uvas verdinhas, bem docinhas. Na maioria das vezes é simples, não tem uma sementinha sequer para atrapalhar e você aproveita a maternidade como a vida pede. Mas às vezes nessas uvas você também encontra umas 3 sementinhas. Dão trabalho, mas não te impedem de saborear a vida.

BP: obrigado Gabi, abraços e beijos não vão te faltar no domingo. Te amamos muito, você é uma mãe linda. Feliz Dia das Mães!

Bom pessoal, espero que tenham gostado.

Aviso importante: esta entrevista é fictícia (felizmente ou infelizmente?), fruto da imaginação de um pai publicitário. Afinal, a Gabi nem gosta de uvas… Mas a mensagem é clara e a homenagem é nítida: FELIZ DIA DAS MÃES para todas as mamães, em especial para a mãe do meu Ben!

Aviso não-importante: hoje, 10 de maio, já é dia das mães em alguns países como: México, Guatemala, Hong Kong, Índia, Malásia e Qatar. Felicidades também às mães de lá.

A maternidade é um mito (mas a vida é melhor com filhos)

Por indicação de minha amiga Bruna, conheci o blog “Manhê… abaixa o som!” que reúne várias entrevistas bacanas. Li a entrevista com Marcia Tiburi, onde a primeira questão abordada é: a maternidade é um mito?

Marcia Tiburi, como boa filósofa que é, descreve sua opinião a respeito e afirma: sim, podemos dizer que em alguns aspectos, a maternidade é um mito. Mas o é, sobretudo, por ser uma peculiar condição política.

Refleti dias a respeito de tudo que li nessa entrevista. Não porque eu precisava de mais argumentos ou porque era contra as informações que tinha lido. Mas para esclarecer algumas coisas dentro de mim. Para assumir meus próprios sentimentos com relação à maternidade.

Cheguei à conclusão que faço certa apologia à vida materna. Eu já falei que filho traz felicidade sim e sempre falo para as amigas que filho é a melhor coisa do mundo (pra mim é realmente!). Tenho uma amiga que não tem filho (ainda) e eu vivo lhe perguntando: quando você vai ter um bebê?

Coisa mais chata essa, né?! A sociedade sempre verbalizando e achando que é um dever a mulher procriar. E se ter filhos não é desejo da minha amiga? Talvez isso nem esteja em seus planos, talvez ela nem me fale nada justamente porque vivo cultuando a (minha) maternidade.

Sim, eu cultuo a minha maternidade. E a maternidade de certa forma é um mito.

O mito da maternidade começa desde a gravidez. A mulher não pode nem reclamar da gestação (viram o caso da Kim Kardashian? Criticada pela declaração “Gravidez não é fácil nem divertido”). Tenho uma prima que não achou divertido estar grávida, mas está amando ser mãe. Eu posso dividir a minha gestação em duas fases: o início que não foi nada divertido e que eu vomitava a cada 7 minutos. O meio da gestação em diante, quando enfim adorei estar grávida e vi um pouco de graça (fala que não é bom usar as filas e assentos preferenciais, ter todo mundo te paparicando?!). Pós-parto, pergunto-me se preciso mesmo listar os mitos?! Mas não resisto, vou citar o que não é mito: 25h cheirando a leite, cabelo despenteado, noites mal dormidas, aquela bendita cinta apertando nossos órgãos corpo, restrições alimentares, peso acima do normal, corpo bagunçado, seca sexual, etc, etc, etc….

O meu filho me traz alegrias, ser mãe me faz feliz. Mas nem todo mundo sente o mesmo. Eu nunca imaginei que a maternidade seria o que é pra mim (tinha uma imagem até pejorativa). Talvez eu tenha mudado minha percepção devido a alguns fatores: Benjamin ser um bebê bonzinho, dormir a noite toda desde sempre, não ter tido cólicas, não ter sofrido com o nascimento dos dentes, não dar trabalho para comer, ter minha mãe me ajudando, contar com a colaboração efetiva do marido pra tudo, ter condições de pagar escolinha, enfim…(a quem possa interessar, também entrei no meu jeans preferido em um mês!) uma série de fatores que influenciam e contribuem sim para a realização da maternidade. Sobretudo, falando muito sério, a cooperação das pessoas ao redor (cuidar de um filho sozinho não é brinquedo não)!

Só que ser mãe implica abrir mão de várias coisas para cuidar de um outro ser que não é você, mas parte de você. Alguns diriam que é um sacrifício, acho forte essa definição, mas para quem não tem o desejo em ser mãe, beira a isso. Não é fácil cuidar de uma criança e menos fácil ainda todas as responsabilidades que nascem junto com a cria. Sim, como diz Marcia Tiburi, a maternidade é uma armadilha para todos que não a conhecem (e eu querendo jogar a minha amiga nessa arapuca!).

Antigamente, ser mãe era o papel principal da mulher. Ser mãe e cuidar do lar. Só que no século XX/XXI aconteceu a maior tendência revolucionária na humanidade: a emancipação da mulher. Passamos a pleitear direitos igualitários. E hoje somamos mais tarefas, responsabilidades e funções à nossa vida. Tornamos-nos mulheres independentes, com enormes jornadas de trabalho fora e dentro de casa + filhos.

Com isso, vivemos em conflito com nós mesmas. É a cobrança da sociedade e a nossa cobrança em realizar, conquistar, ter sucesso, esse dar conta de tudo e, a insegurança de nada dar certo. E ainda sermos bons pais.

Eu não li porque fico com medo do que vou encontrar (porque a julgar pelo título, eu terceirizo o meu filho, uma vez que o mando para a escolinha. Não estou pronta emocionalmente para tal acusação), mas tenho vontade de ler o livro A Criança Terceirizada, do Dr. José Martins. Ele diz que quem não está disposto a mudar sua vida para cuidar de seus filhos não os deveria ter. Ou seja, os filhos precisam de pais dispostos a exercer a função e, digo mais, de pais disponíveis emocionalmente.

No seriado Sex and the City, Miranda, advogada renomada, nunca se imaginou mãe até engravidar, querer abortar e decidir ir em frente com a gestação. (não quero entrar nesse assunto, porque minha ideia não é polemizar, mas depois de algumas conversas e leituras, passei a concordar um pouco com o ponto de vista sobre o aborto mencionado pela Marcia Tiburi na entrevista). Ela pariu, se torna mãe, vive para o trabalho e apesar de tudo se sai bem na função materna. A Carrie, a amiga e personagem principal da série, ao final de um episódio, levanta a questão: Se nós nunca saíssemos da linha, nunca teríamos filhos, ou nunca nos apaixonaríamos, ou não seríamos quem somos.

Escolhas e Possibilidades. Uma questão também de nos conhecermos internamente. Compreendermos nossos desejos mais íntimos. A maternidade pode ser tudo de bom na minha vida, mas pode não ser para a vida da minha amiga e de várias outras mulheres. Eu descobri o quanto a maternidade é gratificante pra mim mas só depois que adentrei na vida materna. Poderia ser o contrário também. Eu poderia ter detestado ser mãe (aliás, tem dias que eu quero fugir. Quem nunca?).

A maternidade é uma armadilha. E a partir de hoje vou me calar. Não faço mais parte do grupo de pessoas que perguntam “quando você terá filhos?”. Não quero cobrar nem impor nada a ninguém. Que as mulheres se tornem mães se desejarem ou quando achar que estão prontas (embora, nunca estaremos). Que busquem sua satisfação pessoal, profissional, financeira. Que sejam acima de tudo felizes da maneira que acreditam ser possível, seguindo seus instintos e não os conselhos de mães afetadas como eu.

Eu, por motivos muito íntimos, quero ainda ter mais um (dois, quem sabe) filho. Pra mim um é pouco, dois é mais ou menos, três seria ideal. Não existe no mundo relação mais forte que a de irmãos. Se filho é tudo de bom, irmão então…!

*

Leia a íntegra da entrevista com Marcia Tiburi AQUI.

Livro “Eu era uma ótima mãe até ter filhos“. Já comentei sobre o livro AQUI e AQUI.

O texto “Um é pouco” do Marcelo Tas, na edição de março da Revista Crescer, é sensacional! Descreve muito bem a transformação da chegada de um segundo filho na casa, nas relações, na convivência, a educação afetiva…Leia o texto em PDF: Um é pouco.