Festa Junina e uma reflexão sobre ansiedade e expectativa dos pais

Sábado passado foi a Festa Junina da escolinha do Ben. Há semanas as crianças estavam ensaiando e há dias eu ouvia a mesma coisa ao deixar o Ben na escola: “ele é um dançarino; dança direitinho; ele adora dançar; blá, blá, blá”, aquilo tudo que deixa qualquer mãe toda prosa.

Em casa eu comprovava isso, pois Benjamin sempre gostou de dançar. Principalmente a música da apresentação. Ele já conhecia e nós dançávamos muito em casa, mas eu não sabia que seria essa.

Passei a semana meio ansiosa. Na infância eu fui muito tímida, embora me apresentasse nessas ocasiões, sempre me permiti ficar encolhida. Mas no geral eu era muito tímida, mais quieta. Benjamin tem outro comportamento. Ele é extrovertido, alegre, sorridente, sem vergonha, li-te-ral-men-te. E esse sempre foi um dos meus desejos enquanto estava grávida. Eu desejava ter um filho sorridente, solto, extrovertido.

A apresentação da turminha dele foi a terceira e as duas anteriores o deixou empolgado, batendo palmas para os coleguinhas. Quando chegou sua vez ele se agarrou no meu pescoço. Eu sabia que isso podia acontecer, pois Benjamin tem demonstrado um pouco de vergonha em público. Subi com ele no palco, agachei e ali ele ficou comigo até que chegou o refrão da música e….vocês poderão ver com os próprios olhos (estamos à esquerda do vídeo):

Meu peito inflou de tanta alegria e orgulho. Bateu uma vontade imensa de chorar de emoção. E até agora, toda vez que vejo esse vídeo, essa vontade volta.

*
Mas porque não conseguimos controlar e colocamos tantas expectativas em nossos filhos?

Analiso o que disse lá em cima: sempre desejei que Benjamin fosse sorridente e extrovertido. Tudo o que não fui. Projetei nele, mesmo antes de nascer, coisas que não fui na minha infância. É muito louco isso.

As crianças tão pequenas são submetidas a apresentações das quais não estão preparadas psicologicamente e quem sabe fisicamente. Elas são treinadas por semanas, mas chega na hora H, ficam paralisadas. De um grupo de treze, uma ou duas crianças até fazem a alegria. Mas a maioria ficam ali no palco em pé, paradas, pensando sei lá o quê, olhando aquele bando de gente, a música alta rolando, as tias dançando olhando pra elas e os pais – os grandes expectadores – acabam frustrados. Pergunto: é necessária essa exposição toda?!

E é um sentimento natural(?!). Você quer ver seu filho dançar, fazer graça e quer mostrar pra todo mundo que seu filho é talentoso em alguma coisa (ou de preferência em tudo). Aliás, ansiamos ouvir isso a todo instante.

Estou lendo o livro “Sob Pressão”, de Carl Honoré – jornalista e historiador ex viciado em velocidade e rapidez que atualmente dedica-se a filosofia do Slow moviment. Foi indicação da blogueira Mariana, do blog Pequeno guia prático para mães sem prática e Minha Mãe que Disse. Estou gostando muito e em breve vamos sortear um exemplar aqui no blog.

Nesse livro, o autor fala justamente disso, da ansiedade e expectativa que nós pais colocamos em nossos filhos, da intervenção dos adultos na vida das crianças, de como usamos a tecnologia para vigiar os pequenos. Segundo o autor “estamos criando a geração mais conectada, mimada e monitorada da história”.

Falarei sobre esse livro mais para frente, mas uma das reflexões que ele traz e que quero deixar nesse momento, porque é a que tenho feito é: hoje vivemos para tirar o máximo que nossos filhos podem ser e/ou fazer. Queremos que eles tenham o melhor de tudo e que sejam os melhores em casa, na escola, nas atividades extra-curriculares, o dançarino em destaque na festa junina (por que não?!).

Mas não basta que eles sejam talentosos. Além disso, temos planos para a vida deles e desejamos fervorosamente protegê-los contra tudo e todos. Como diz logo no início do livro: “Queremos que sejam artistas, acadêmicos e atletas – e que deslizem pela vida sem privações, dores ou fracassos”.

Até que ponto isso é bom ou ruim? Será que isso faz bem para nós pais e, principalmente, para nossos filhos?

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9 Comentários

  1. Rejane

     /  1 de julho de 2013

    A Bia, não dançou na festa junina da escolinha e foi como um balde de água fria na minha expectativa e ansiedade em vê-la dançar como nos “ensaios” e em “casa”. Mas isso não aconteceu. E depois, ela me disse que ficou com vergonha…E pensando em casa e depois relendo essa matéria, vemos que as vezes não devemos colocar tanta expectativa nos pequenos, porque eles ainda estão “experimentando” o mundo! Mais uma vez, parabéns pela matéria. Bjs Rejane

    Responder
    • Oi Rejane!
      Obrigada por comentar e dividir conosco sua experiência.
      Acho que estamos todos nós experimentando e conhecendo o mundo, nossos filhos e nós como mães/pais. E vamos aprendendo com nossos erros e acertos.
      Um super beijo

      Responder
  2. hsordili

     /  1 de julho de 2013

    ai ai… seus textos que me fazem tao bem….
    Tato não dançou mas eu fiquei tranquila… não forcei. Acho que tudo tem seu tempo ne?
    Na Festa da Familia ele não quis se apresentar com a turminha do judô e todo mundo indignado: você não quer que ele faça? E eu: quero, mas se ele não quer não vou forçar!
    Porque né? Depois traumatiza e nunca mais quer nem fazer a aula de judô… hehe
    Quero ler esse livro!
    Também estou lendo um muito bom e logo vou postar sobre ele!
    beijos
    Lele

    Responder
    • A gente fica um pouco frustrada, né Lelê?! Mas sou como vc, forçar não tem nada a ver. Qd vi que Ben não ia dançar fiquei meio triste, mas ok. Qd ele foi fiquei feliz. Mas refletir sobre isso é importante, vai chegar o dia que ele não vai querer de jeito nenhum e acho que tenho que saber lidar com isso. Obrigada por
      Me visitar sempre! Rs
      Super beijo

      Responder
  3. Gabi, por incrível que pareça, eu nunca tinha pensado sobre isso. Sobre toda essa cultura do exibicionismo… Talvez por eu nunca ter tido vergonha. Luquinha também, como eu, adora se exibir. rs Mas acho que vc levantou um ponto importante. E quando a criança não quer, não tem vontade e os pais ficam lá esperando, pedindo, implorando… É um sofrimento para as duas partes. A que se decepciona com a negativa e a que não corresponde às expectativas dos pais. Porque rola uma culpa por parte da criança, de ter sido a única que não quis e deixou os pais tristes. Vou passar a prestar mais atenção. 😉 Adorei a agitação do Ben! É um dançarino nato!!!! =) Bjssss

    Responder
    • Pois é, Ju, mas acho que essa cobrança hoje não vem só dos pais, mas da sociedade em geral. Tipo, começo a pensar que as escolas não deveriam “expor” as crianças de até dois anos de idade.

      Eu tenho refletido muito sobre esse assunto e esse livro tem me levado para luz. Ahahahahahahahahaha

      Responder
  4. Adoro os seus textos Gabi! Eu tb ão fui uma criança muito extrovertida… Mas minha mãe sempre me colocou para dançar, desfilar, tocar piano e tudo o mais que tinha direito, coisas de mãe, né?! Como AL é uma criança mega extrovertida, que dá show, confesso que qdo ela não está muito na vibe eu me frusto um pouco. O equilibrio é sempre o caminho e o nosso sonho de consumo como mãe!
    Beijo querida!
    Débora Araújo
    http://www.personalbebe.com.br
    @personalbebe

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  5. Carina

     /  1 de julho de 2013

    Oi Gabi, o Ben está uma fofura. Adorei o post e me fez refletir muito sobre as expectativas que criamos em torno dos filhos.
    Cada dia gosto mais do blog!
    Bjos!

    Responder
  6. Mislene

     /  2 de julho de 2013

    Definitivamente somos todas iguais; temos as mesmas expectativas, queremos as mesmas coisas…rs
    Mas mãe de filho homem normalmente se frustra (se é que podemos usar esta palava). Menino normalmente não gosta de dançar, se exibir para os outros como as meninas. Mas vejo que o Ben, assim como meu pequeno Miguel são o oposto disto. O Ben certamente se assustou com a plateia mas depois soube dizer pra que veio. O Miguel na festa da junina da escollinha também ficou timido pela quantidade de pessoas que ali estavam mas dançou, se é que mexer lentamente o corpo quase parando é dançar…rs. Mas ele curte dançar e vejo que isso, pelo menos isso, já que ele é fisicamente a cara do pai, ele herdou de mim pois eu amo dançar… enfim, amamos ver nossos filhos leves, livres e soltos (mas perto de nós claro..rs)
    Kisses Mislene

    Responder

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