Sonhos, Morte e um livro

Eu nunca sonho, ou melhor, se é verdade que todo mundo sonha todas as noites, eu nunca lembro dos meus sonhos. São raros os que lembro e esses são sempre os mais negativos.

Outro dia tive um sonho esquisito. Eu e marido tínhamos que fazer um exame de DNA no Benjamin. O mais esquisito é que todo mundo queria pegar o Benjamin como se ele fosse um ratinho de laboratório e eu tentava protegê-lo e fazer o exame secretamente, só eu, marido e Benzoca. O mais esquisito ainda era o motivo de realizar esse exame. Era algo como se tivessem descoberto que Benjamin não era nosso filho. O negócio me apavorava e por isso eu queria fazer o exame na surdina, pois eu temia que as pessoas estavam contra nós, queriam roubar o Benjamin de mim e, por isso, eles fossem forjar o resultado do exame. Além disso me atordoava pensar na hipótese dele não ser meu filho de sangue. Não porque ia ser colocado em xeque o amor que sinto por ele, porque na verdade o amor já estava construído. Mas em sonho, era estranho pensar que tudo o que via nele, pensando ser parte de mim e parte do marido, era na verdade um blefe. Mas mesmo assim eu não deixaria ninguém tirar ele de mim. Foi um sonho super confuso e estranho.

Aí dia desses, eu que não lembro dos meus sonhos e sempre senti falta do Benjamin neles, tive outro sonho com ele envolvido. Sonhei que a Morte me perseguia. Estranho é que eu não estava morrendo, estava literalmente sendo perseguida por ela. Eu nunca fui de pensar na morte ou de ter medo de morrer. Mas depois que tive o Benjamin a ideia de morrer não me agrada, passei a achar que morrer é algo de muito mau gosto. Uma das primeiras coisas que me ocorreu quando pensei na possibilidade de morrer e deixar meu Ben, foi o fato de que ninguém cuidaria do meu filho como eu, ninguém faria por ele o que eu seria capaz de fazer. Ninguém. Talvez só a minha mãe.

Ao longo desses dois anos de configuração mãe e filho, percebi que o motivo de não poder morrer virou uma lista infidável, principalmente por coisas que preciso ensinar ao meu filho. São tantas as coisas que preciso ensinar a ele…!

Preciso ensinar meu filho a andar de bicicleta sem rodinhas, a apreciar uma paisagem, a nadar (embora, eu não saiba), a escrever, a ler, preciso ensinar-lhe um (de preferência, vários) caminho(s), a escalar uma montanha, que viajar é melhor do que bens materiais, a ficar sozinho, apreciar sua companhia, respeito, a pisar na areia….preciso ensinar uma infinidade de coisas a ele.

E desculpa, se pareço egoísta, mas eu quero ser a responsável por ensinar  isso e muito mais para ele. Eu quero estar perto dele quando ele tomar o primeiro tombo tentando andar com a sua bicicleta sem rodinhas. Assim como eu quero estar ao seu lado quando ele pegar o equilíbrio e sair pedalando, vibrando de alegria, sentindo o vento batendo em seu rosto. Eu quero estar perto dele e presenciar cada tentativa e conquista dele.

E só de pensar tudo o que eu quero viver com ele ainda, eu sou tomada de emoção. Tem muita coisa boa para acontecer… coisas que mudam a gente como ser humano, coisas que podem fazer de nós pessoas melhores, coisas que a gente carrega pra sempre na memória afetiva. E eu quero fazer parte dessa memória do meu filho.

Assim como os filhos não deviam morrer antes dos pais, os pais não deveriam morrer sem antes ter passado tudo o que é de direito ao lado dos filhos. Essas poucas coisas que citei podem parecer que qualquer um pode ensinar aos filhos. E sim, os amigos, os tios, os avós podem ensinar-lhes essas e muitas outras coisas. Mas o trabalho de pai e mãe é diferente. Tem ensinamentos e, esses citados são só alguns que, em minha opinião, embora simples, são de deveres e direitos que só deveriam caber aos pais.

Sei que nesse dia do sonho esquisito, acordei decidida a dedicar parte do meu tempo a ensinar ao meu filho essas coisas que se guardam no coração. Talvez eu escrava um livro: “Coisas que preciso ensinar ao meu filho antes de morrer”. Quem sabe eu não morro enquanto não terminar o livro.

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2 Comentários

  1. Vou querer ler este livro! Incrível que hoje, enquanto colocava o Joaquim para dormir pensei em como o tempo passa rápido e daqui a pouco nem vou mais me lembrar das coisas, me deu medo, medo de não viver intensamente os momento, de não aproveitar e dar o valor….

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  2. Carina

     /  8 de maio de 2013

    Ei Gabi, acho que toda mãe sofre desse medo né? Mas também penso que devemos curtir cada momento como se fosse o último, pois um dia vai ser. E se possível, esses momentos devem ser dedicados a quem a gente ama, pois no final mesmo, é disso que a gente lembra, dos momentos, das viagens, da família, dos filhos…e não do trabalho, do stress, das tarefas que deixamos de entregar ao chefe, dos problemas e da vida dos outros, rsrsrs! Bjos!

    Responder

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