Culpa materna, bom senso e coerência – Entrevista Elizabeth Monteiro

Não importa se você trabalha fora ou não. As dúvidas são permanentes: como equilibrar a vida quando, além de cobrarmos a nós mesmas, vivemos numa sociedade em que se cobra muito a competência e desvaloriza o papel que nós, mães, desempenhamos com amor que é cuidar da formação de nossos pequenos, nos esforçando para transformá-los em pessoas do bem? Muitas tem jornadas duplas de trabalho. Outras abriram mão do seu lado profissional. Por que nos descabelamos, nos culpamos, nos estressamos e estamos quase sempre com a sensação de impotência?

Para esclarecer algumas de nossas dúvidas, nossa primeira entrevistada é a pedagoga e psicóloga Elizabeth Monteiro, mãe de quatro filhos e autora dos livros “A culpa é da mãe” e “Criando filhos em tempos difíceis” – a ser lançado no próximo dia 08/05. Tive o prazer de conhecer Betty Monteiro no brunch da revista Pais & Filhos, na ocasião falamos sobre maternidade x trabalho e fiquei maravilhada com esse ser humano desde o primeiro momento. Além de ser mãe de quatro filhos, ou seja, tem larga experiência pessoal, ela é uma excelente profissional. Daquelas pessoas que você admira e quer aprender tudo que puder com ela.

Eu a definiria como o bom senso em pessoa. Aliás, parece que são dois aspectos compõem seu lema: bom senso e coerência. Para tudo o que fizermos, principalmente com relação aos filhos, é preciso uma boa dose desses dois ingredientes. Coerência – relação harmônica entre o que falamos e a forma que agimos.

No Wikipédia, ‘bom senso’ é um conceito usado na argumentação que é estritamente ligado às noções de sabedoria e de razoabilidade, e que define a capacidade média que uma pessoa possui, ou deveria possuir, de adequar regras e costumes a determinadas realidades, e assim poder fazer bons julgamentos e escolhas.

A seguir, breve entrevista com Betty Monteiro.

Bossa Mãe: De onde a culpa surge? Para não sentirmos culpa tem como achar o esclarecimento necessário dentro de nós?

BM: A culpa materna surgiu com os estudos e publicações de Rousseau, que mudou totalmente o conceito de infância que se tinha até o século XVII. Até esta época, as crianças eram tratadas como mini adultos, abandonadas à própria sorte e cuidadas pelas amas de leite.

Rousseau introduziu uma grande mudança no conceito que se tinha da criança e da educação. As mães deveriam passar a amamentar e a cuidar dos seus filhos. Mas… Surge Freud, que começa a atribuir todas as neuroses (ou quase todas), à relação mãe e filho. Depois disso, a culpa materna se generalizou e passou a ser cultural.

As mães se culpam e são acusadas pelas suas próprias mães e pela humanidade, quando algo não vai bem com o filho. Precisamos mudar isso, pois estudos mais recentes mostram que a criança já nasce com uma predisposição genética a desenvolver alguns transtornos, que criança também é fruto do ambiente em que vive, do pai, da família toda, da escola e não somente do modelo materno. Mãe culpada não consegue educar. Tem medo de contrariar, de frustrar o filho. A maternidade fica muito pesada e pouco prazerosa quando acompanhada de culpa.

Ninguém tem culpa daquilo que não sabe, mas passa a ter à partir do momento em que sabe. Devemos aprender com os erros, nos perdoar e acreditar em nosso potencial de criar educar uma criança, baseando-nos naquilo que acreditamos e não buscando modelos em outras pessoas.

Bossa Mãe: O termo “terceirizar o filho” não é muito claro pra mim. Por exemplo, se eu assumi trabalhar fora e deixo meu filho no berçário, estou terceirizando. É o mesmo se eu o deixar com outra pessoa em casa. Quer dizer, se trabalho fora eu tercerizo meu filho. Mas isso não é inevitável para quem trabalha fora, principalmente porque temos outros papéis a desempenhar na sociedade? Se encaixa aí aquele julgamento conhecido sobre “colocar filhos no mundo para os outros criarem”?

BM: As respostas estão dentro da gente. Basta se perguntar: o que eu penso sobre isso, o que eu quero e o que me deixa bem. Isto chama-se bom senso e coerência.

Terceirizar os filhos não significa mandá-los para a escola ou manter uma babá para a mãe poder cuidar das suas coisas e do trabalho. Quando digo isso, refiro-me às mães que deixam as questões dos filhos para os outros resolverem: reuniões escolares, reuniões com os profissionais que atendem a esta criança (psicólogo, médico, professores diversos). Terceirizar é não participar da vida da criança.

Não importa o que a sociedade diga, ou mesmo que ela não valorize o trabalho da mulher: seja em casa, ou fora. O importante é a pessoa se valorizar e se fazer respeitar. O respeito e o reconhecimento, são conquistas que realizamos na vida. O importante é você estar bem com você. Críticas sempre existirão.

Bossa Mãe: Em seu livro, A culpa é da mãe, a Dra. diz que não existe a perfeição quando se trata da maternidade. Porque existe tanta comparação entre mães? A mãe perfeita não existe, mas porque queremos ser sempre mães perfeitas? Essa intenção vem da culpa que sentimos algumas vezes?

BM: As mulheres sempre competem entre si. As mães competem para mostrar que são as melhores e as perfeitas. Isto é imaturidade. Buscam a aceitação e muitas vezes enchem os filhos de atividades, só para mostrar para as outras, como o filho é bom (no conceito dela). Não está nem um pouco preocupada com esta criança, mas sim em competir pela busca do melhor status. Uma questão puramente egoica: “Olha como eu sou boa! O meu filho fala ‘Javanês’ e o seu não…” Aí a coitada da outra mãe, que é insegura, vai atrás do tal curso de Javanês para a pobre da criança. Depois vira uma bola e neve e entra na moda. E a criança??? Pura falta de bom senso.

Bossa Mãe: Atualmente, quando algumas mulheres manifestam a vontade de ter um número maior que um (ou dois) filho, são logo vistas como seres alienados, malucos, fora da realidade. Isso parece ser manifestação de uma sociedade que dita regra de estética, economia, social e mesmo de realização, como se o que é considerado dentro dos padrões já permitisse que a pessoa fosse feliz o suficiente para não querer mais. No caso dos filhos, visto como uma loucura, por conta do “trabalho” que um só dá. O que a Dra., como mãe de 4 filhos, acha disso? Seus quatro filhos, foram planejados?

BM: Hoje em dia, com todos esses modismos, ter filhos ficou muito caro!!! Já imaginou manter uma babá para cada filho? Vejo muito isso!

Então dá até desespero só de pensar em ter filhos. Eu tive quatro, todos planejados. Não, não pude ter o quinto porque foram 4 cesarianas. Fico triste até hoje. Criei todos soltos, em contato com a natureza e com a simplicidades da vida. Nunca tiveram babá, sempre trabalhei e estudei muito, mas sempre mantinha sagrado e sacramentado os horários de estar com eles, inteira, na relação. Nunca fizeram aulas de inglês, natação, balet, e o que fosse da moda. Hoje todos falam inglês, nadam muito bem e são excelentes profissionais. São autodidatas em muitas coisas.

Bossa Mãe: Sabemos que não existe receita para criar os filhos, mas o que a Dra. sugere e aconselha às outras mães?

BM: Para se criar um filho basta ser um bom modelo e ter bom senso. Mentir faz mentir, enganar faz enganar e por aí vai. Antes de se queixar de que algo não vai bem com a criança, dê uma olhada para dentro de si. Eu gosto de educar pelo sim, embora o não seja o primeiro organizador psíquico. Bater, agredir verbalmente, rotular, dizer muitos nãos, criticar e não aceitar a criança como ela é, podem trazer muitas dificuldades e péssimos resultados.

*

Acabou, que peninha! Mas você pode levar um pouco da Betty Monteiro pra casa. Quer ganhar o livro “A culpa é da Mãe”?

a culpa é da mãe

O Bossa Mãe vai sortear um exemplar entre seus leitores. Para participar, siga as instruções abaixo:

1. Deixe no comentário seu nome e compartilhe conosco: o que mais te aflige na maternidade?

2. Curta no facebook a fan page da Betty Monteiro, AQUI Ó.

3. Cruze os dedos. E boa sorte!

O sorteio será realizado no sábado, dia 11/05 e divulgado aqui no blog.

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11 Comentários

  1. Mariana Mello
    O que mais me aflige? O Joaquim vir a ser usuário de drogas ou não querer estudar.
    🙂

    Responder
  2. Ana Paula

     /  2 de maio de 2013

    O que mais me aflige é não saber se estou tomando as decisões certas para que ele seja uma criança – e no futuro, um adulto – saudável, feliz e bem resolvido.

    Ana Paula
    apfabretti.ana@gmail.com

    Responder
  3. danae

     /  2 de maio de 2013

    me aflige ficar doente e nao poder cuidar das minhas filhas.
    Danae

    Responder
  4. Ai que pergunta difícil…o que mais me aflige é o tempo passar e eu perceber que podia ter sido mais pra eles, acho que tem a ver com a tal culpa mesmo, mas depois de ler essa breve mas esclarecedora entrevista, confesso que renovo meu ponto de vista e forma de criar meus pequenos com todo amor que acho eles merecerem e lá vou eu, rumo ao terceiro!!!rsrsrsr

    Responder
  5. Lizandra

     /  2 de maio de 2013

    É realmente uma pergunta dificíl. Mas o que mais me aflinge no momento é a dúvida se estou fazendo a coisa certa.

    Responder
  6. angela cristina raizer santos

     /  3 de maio de 2013

    Oq mais me aflige hj são meus netos ,procurei ajudar pq experiencia eu tenho ja vivi td isso q meu filho e minha nora passam ,mas não adiantou pq eles não me deram a minima ,triste pq eles os netos são dois meninos ja estão com muitos problemas de comportamento e emocionais.

    Responder
  7. Larissa Sanches

     /  3 de maio de 2013

    Larissa Sanches
    O que mais me aflige é a violência, pois não posso controlar e esta cada vez mais próxima de nós

    Responder
  8. Olá Gabis,

    O q mais me aflige é não deixar uma boa educação e carater pro meu filho.

    Beijos,

    Responder
  9. Estela Karoleski

     /  8 de maio de 2013

    O que mais me aflige na maternidade é a preocupação de mostrar aos meus filhos que somos responsáveis por nossas escolhas, que existem coisas que são boas e outras ruins, e que ao crescerem eles saibam fazer as suas, sabendo que para cada escolha existe uma consequência! Boa sorte a nós mães!

    Responder
  10. Raquel

     /  8 de maio de 2013

    O que mais me aflige é o futuro do meu filho nesse mundão de Deus. Se ele terá bons relacionamentos. Ah que afliçãoooo!!!

    Responder
  1. Sorteio do livro: A Culpa é da mãe | bossamae

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