A poesia da infância

Dia desses tive a oportunidade de assistir a uma palestra do educador Marcelo Cunha Bueno. Com o título “a poesia da infância”, Marcelo nos fez um convite para uma reflexão: será que estamos permitindo às crianças a experiência de viver a infância?

Segundo o educador, o adulto corrompe a infância. Ele falou sobre as relações temporais dessa época e as dividiu em três tempos:

Chrónos
É o tempo marcado, o tempo parado que resta, a criança que resta para acabar.

Kairós
O momento da oportunidade. O designo do destino. A junção entre o fato e a possibilidade. O que nos torna diferente pela experiências constituídas através de outros e de instituições.

Aión
O tempo da intensidade. O tempo sem duração. Um espaço entre. O instante. A experiência. O não mensurável, o não numeráveis da infância. O reino da criança.

É Aión o tempo que marca o que fica em nossa memória a vida inteira. Enquanto Marcelo falava, fui sequestrada pela minha memória. Me considero uma pessoa de poucas lembranças de infância, mas as que existem, são justamente as mais inesquecíveis e que definem muito bem pra mim o significado do tempo Aión.

O cheiro da casa dos meus avós, o cheiro do escritório do meu avô paterno, o borbulhar da coca-cola no copo azul (que só tinha na minha avó), até o sabor da água do filtro da casa dela eu sou capaz de sentir hoje na casa da minha tia Rosana. E aí é como voltar no tempo, no espaço.

Esse é o tempo que marca algo individual e singular para cada pessoa. Marcelo ainda nos cutucou: e não seria Aión a possibilidade de vivermos a intensidade da infância nos tempos de adulto? Creio que sim.

Assim como o educador, acredito que a infância não acaba totalmente, ela está ligada “a disposição de se relacionar com a vida”, na forma como você encara e enxerga a vida. Isso é mais perceptível pra mim agora com Benjamin presente. Ele me fez perceber isso de novo, reacendeu a infância que mora dentro de mim. Sinceramente, não tem coisa melhor que viver na infância. A gente perde, talvez, a parte cristalina que vemos nas crianças. Criamos uma casca, o que torna imprescindível ao longo da caminhada, mas não podemos deixar de cultivar a infância que existe dentro de nós.

Marcelo apresentou dois textos para refletirmos:

“A experiência, a possibilidade de que algo nos passe ou nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível nos tempos que correm:  requer parar para pensar, para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar e escutar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar os outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço”. (Jorge Larrosa – Experiência e Paixão)

Será que estamos dando espaço para essas experiências? Acho que ficamos tão presos a correria e pressão do dia a dia, que trocamos os pés pelas mãos.

O outro texto, Manoel de Barros nos ajuda a pensar sobre a infância e o tempo…

“Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. a gente só descobre isso depois de grande. a gente descobre que o tamanho das coisas há que ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do nosso quintal são sempre maiores do que as outras pedras do mundo. Justo pelo motivo da intimidade. Mas o que eu queria dizer sobre o nosso quintal é outra coisa… Mas eu estava a pensar em achadouros de infâncias. Se a gente cavar um buraco ao pé da goiabeira do quintal, lá estará um guri ensaiando subir na goiabeira. Se a gente cavar um buraco ao pé do galinheiro, lá estará um guri tentando agarrar no rabo de uma lagartixa. Sou hoje um caçador de achadouros de infância. Vou meio dementado e enxada às costas a cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos”. 

Desde o dia dessa palestra, tenho me sentido assim, a cavar o meu quintal em busca dos vestígios da menina que fui. Eu precisei ganhar o Benjamin para acordar a criança que mora dentro de mim. Sinceramente, não quero que meu Ben perca a essência da infância. Não quero desnaturar sua infância. Não quero que ele precise cavar para descobrir sinais do que já foi um dia, porque quero que ele preserve tudo dentro de si, sem precisar sair juntando pedacinhos.

Precisamos permitir às crianças a experiência de viver a infância. A experiência de viver as possibilidades ditas no texto acima de Jorge Larrosa. A experiência de constituir memórias afetivas. A experiência de viver no tempo Aión. E nos permitir tudo isso também.

*

Essa palestra aconteceu no primeiro encontro de Mamães Blogueiras,  produzido pela Baby.com.br. O evento reuniu várias mamães blogueiras e a apresentadora Angélica, mãe de três.

blog-fotos

 

baby 3 (3)

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2 Comentários

  1. Ahhh que linda!
    Olha nós 3 aí!
    Adorei o evento com vc do meu ladinho!
    beijao

    Responder
  2. Ficamos pertinho e não nos conhecemos! Poxa vida! Precisamos de mais um encontrinho! rs
    Beijos Natália

    Responder

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