A maternidade é um mito (mas a vida é melhor com filhos)

Por indicação de minha amiga Bruna, conheci o blog “Manhê… abaixa o som!” que reúne várias entrevistas bacanas. Li a entrevista com Marcia Tiburi, onde a primeira questão abordada é: a maternidade é um mito?

Marcia Tiburi, como boa filósofa que é, descreve sua opinião a respeito e afirma: sim, podemos dizer que em alguns aspectos, a maternidade é um mito. Mas o é, sobretudo, por ser uma peculiar condição política.

Refleti dias a respeito de tudo que li nessa entrevista. Não porque eu precisava de mais argumentos ou porque era contra as informações que tinha lido. Mas para esclarecer algumas coisas dentro de mim. Para assumir meus próprios sentimentos com relação à maternidade.

Cheguei à conclusão que faço certa apologia à vida materna. Eu já falei que filho traz felicidade sim e sempre falo para as amigas que filho é a melhor coisa do mundo (pra mim é realmente!). Tenho uma amiga que não tem filho (ainda) e eu vivo lhe perguntando: quando você vai ter um bebê?

Coisa mais chata essa, né?! A sociedade sempre verbalizando e achando que é um dever a mulher procriar. E se ter filhos não é desejo da minha amiga? Talvez isso nem esteja em seus planos, talvez ela nem me fale nada justamente porque vivo cultuando a (minha) maternidade.

Sim, eu cultuo a minha maternidade. E a maternidade de certa forma é um mito.

O mito da maternidade começa desde a gravidez. A mulher não pode nem reclamar da gestação (viram o caso da Kim Kardashian? Criticada pela declaração “Gravidez não é fácil nem divertido”). Tenho uma prima que não achou divertido estar grávida, mas está amando ser mãe. Eu posso dividir a minha gestação em duas fases: o início que não foi nada divertido e que eu vomitava a cada 7 minutos. O meio da gestação em diante, quando enfim adorei estar grávida e vi um pouco de graça (fala que não é bom usar as filas e assentos preferenciais, ter todo mundo te paparicando?!). Pós-parto, pergunto-me se preciso mesmo listar os mitos?! Mas não resisto, vou citar o que não é mito: 25h cheirando a leite, cabelo despenteado, noites mal dormidas, aquela bendita cinta apertando nossos órgãos corpo, restrições alimentares, peso acima do normal, corpo bagunçado, seca sexual, etc, etc, etc….

O meu filho me traz alegrias, ser mãe me faz feliz. Mas nem todo mundo sente o mesmo. Eu nunca imaginei que a maternidade seria o que é pra mim (tinha uma imagem até pejorativa). Talvez eu tenha mudado minha percepção devido a alguns fatores: Benjamin ser um bebê bonzinho, dormir a noite toda desde sempre, não ter tido cólicas, não ter sofrido com o nascimento dos dentes, não dar trabalho para comer, ter minha mãe me ajudando, contar com a colaboração efetiva do marido pra tudo, ter condições de pagar escolinha, enfim…(a quem possa interessar, também entrei no meu jeans preferido em um mês!) uma série de fatores que influenciam e contribuem sim para a realização da maternidade. Sobretudo, falando muito sério, a cooperação das pessoas ao redor (cuidar de um filho sozinho não é brinquedo não)!

Só que ser mãe implica abrir mão de várias coisas para cuidar de um outro ser que não é você, mas parte de você. Alguns diriam que é um sacrifício, acho forte essa definição, mas para quem não tem o desejo em ser mãe, beira a isso. Não é fácil cuidar de uma criança e menos fácil ainda todas as responsabilidades que nascem junto com a cria. Sim, como diz Marcia Tiburi, a maternidade é uma armadilha para todos que não a conhecem (e eu querendo jogar a minha amiga nessa arapuca!).

Antigamente, ser mãe era o papel principal da mulher. Ser mãe e cuidar do lar. Só que no século XX/XXI aconteceu a maior tendência revolucionária na humanidade: a emancipação da mulher. Passamos a pleitear direitos igualitários. E hoje somamos mais tarefas, responsabilidades e funções à nossa vida. Tornamos-nos mulheres independentes, com enormes jornadas de trabalho fora e dentro de casa + filhos.

Com isso, vivemos em conflito com nós mesmas. É a cobrança da sociedade e a nossa cobrança em realizar, conquistar, ter sucesso, esse dar conta de tudo e, a insegurança de nada dar certo. E ainda sermos bons pais.

Eu não li porque fico com medo do que vou encontrar (porque a julgar pelo título, eu terceirizo o meu filho, uma vez que o mando para a escolinha. Não estou pronta emocionalmente para tal acusação), mas tenho vontade de ler o livro A Criança Terceirizada, do Dr. José Martins. Ele diz que quem não está disposto a mudar sua vida para cuidar de seus filhos não os deveria ter. Ou seja, os filhos precisam de pais dispostos a exercer a função e, digo mais, de pais disponíveis emocionalmente.

No seriado Sex and the City, Miranda, advogada renomada, nunca se imaginou mãe até engravidar, querer abortar e decidir ir em frente com a gestação. (não quero entrar nesse assunto, porque minha ideia não é polemizar, mas depois de algumas conversas e leituras, passei a concordar um pouco com o ponto de vista sobre o aborto mencionado pela Marcia Tiburi na entrevista). Ela pariu, se torna mãe, vive para o trabalho e apesar de tudo se sai bem na função materna. A Carrie, a amiga e personagem principal da série, ao final de um episódio, levanta a questão: Se nós nunca saíssemos da linha, nunca teríamos filhos, ou nunca nos apaixonaríamos, ou não seríamos quem somos.

Escolhas e Possibilidades. Uma questão também de nos conhecermos internamente. Compreendermos nossos desejos mais íntimos. A maternidade pode ser tudo de bom na minha vida, mas pode não ser para a vida da minha amiga e de várias outras mulheres. Eu descobri o quanto a maternidade é gratificante pra mim mas só depois que adentrei na vida materna. Poderia ser o contrário também. Eu poderia ter detestado ser mãe (aliás, tem dias que eu quero fugir. Quem nunca?).

A maternidade é uma armadilha. E a partir de hoje vou me calar. Não faço mais parte do grupo de pessoas que perguntam “quando você terá filhos?”. Não quero cobrar nem impor nada a ninguém. Que as mulheres se tornem mães se desejarem ou quando achar que estão prontas (embora, nunca estaremos). Que busquem sua satisfação pessoal, profissional, financeira. Que sejam acima de tudo felizes da maneira que acreditam ser possível, seguindo seus instintos e não os conselhos de mães afetadas como eu.

Eu, por motivos muito íntimos, quero ainda ter mais um (dois, quem sabe) filho. Pra mim um é pouco, dois é mais ou menos, três seria ideal. Não existe no mundo relação mais forte que a de irmãos. Se filho é tudo de bom, irmão então…!

*

Leia a íntegra da entrevista com Marcia Tiburi AQUI.

Livro “Eu era uma ótima mãe até ter filhos“. Já comentei sobre o livro AQUI e AQUI.

O texto “Um é pouco” do Marcelo Tas, na edição de março da Revista Crescer, é sensacional! Descreve muito bem a transformação da chegada de um segundo filho na casa, nas relações, na convivência, a educação afetiva…Leia o texto em PDF: Um é pouco.

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3 Comentários

  1. Adorei o texto e concordo com você. Eu nem fico peguntando para as amigas quando vai vir o nenê, porque ouvi essa “cobrança” desde que conheci meu marido e que começamos a namorar há 10 anos atras, e foi duro, e isso que eu sempre quis ser mãe, imagino o quanto não deve ser sofrido para quem não quer ser ficar ouvindo esse tipo de “cobrança”. Sempre procuro mostrar o lado bom, e sim faço questão de, para as mais íntimas, mostrar a verdade nua e crua. Para mim a gestação foi maravilhosa, mesmo tendo enjoo até o Joaquim nascer, em 3 meses voltei ao peso normal, consegui amamentar (e ainda amamento) numa boa, meu pós operatório foi susse. Marido ajuda (queria que ajudasse mais, mas….), minha mãe tbm, o Joaquim é um anjo, é tão bonzinho que temos até medo do 2º, mas vai vir, independente de qualquer coisa! Quanto ao livro, eu comprei, eu li e confesso que esperava um puxão de orelha mais forte, ele fala de várias terceirizações, mas pega mais pesado na questão da criança abandonada e da criança de pais despreparados. Afinal para ser mãe é preciso preparo, e muito, pois a vida muda muito, é abrir mão de muita coisa em nome de um ser totalmente dependente de você. Eu não vejo problema nisso, pois não tem coisa mais gostosa do que ficar com meu pequeno, até mesmo ser acordada de madrugada não é ruim quando você chega na beirada do berço e vê aquele sorriso semi-banguela mais lindo do mundo!

    Responder
    • Mari, você teve enjoo até Joaquim nascer? Eu não aguentaria. Quase morri os 4 primeiros meses. Fiquei até desanimada, triste, com medo de ser daquele jeito até o final. Todo mundo dizia que passava no terceiro mês. Ele chegou e nada. Só no quarto mês melhorei. Eu vomitava umas 4 vezes por dia (sem exagero nenhum!). Era uma sensação horrível, não só por vomitar, mas pelo estado em que eu ficava, sem forças nenhuma. Depois que passou, nem lembrava mais. O restante da gestação também foi maravilhoso, me sentia gloriosa. E isso não me intimida a pensar na segunda gravidez. (risos) Também tive muita sorte, porque Benjamin sempre foi muito bonzinho. A maioria dos problemas que todas as mães enfrentam, não enfrentei.

      Não gostei muito do livro, porque acho que só tem depoimentos de mães que idealizavam muito a maternidade. Achei a maioria das mães negativas, sabe?! Mas acho que é uma boa leitura para que não sabe se quer ter filhos. Para se preparar psicologicamente mesmo porque não é fácil. Por outro lado, acho que nunca estamos preparadas. A maternidade nos ensina e nos desenvolve no dia a dia mesmo.

      Adoro suas visitas e comentário!!!

      Super beijo

      Responder
      • Tive enjoos durante toda a gravidez, mas vomitei poucas vezes, ficava sem apetite, e acaba comendo forçada sabe, porque sabia que precisava comer por mim e pelo nenê. Mas a gravidez foi maravilhosa, tirando isso, (uma intoxicação alimentar e um tombo da escada), foi tudo perfeito!

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