Culpa, sim!

Recentemente, produzi uma matéria para a revista Pais & Filhos, publicada nesse mês de fevereiro. O nome da matéria: “Culpa, sim”.

Foi um trabalho muito gostoso de fazer, por n motivos. Por ser mãe e acreditar que toda mãe sente culpa, inevitavelmente, em algum momento da vida. Foi uma oportunidade de me aprofundar mais nesse tema. Conhecer outras histórias. Trocar experiências. E, principalmente, uma oportunidade de aprender com outras mães e algumas profissionais psicólogas.

De cada entrevista tirei uma lição. Depois de tanta pesquisa, ficou clara uma coisa: culpa é um sentimento cotidiano de toda mãe. Nenhuma está livre desse sentimento. AQUI tem um depoimento que fiz para o site da Revista Pais & Filhos, onde falo sobre isso.

Sentimos culpa pelas maiores e menores falhas que cometemos, pelos desejos que sentimos e pelas decisões (algumas vezes) contrárias do que nossos filhos desejam. Exemplos:

1. Âmbito desamparo-maternal: por esquecer um compromisso da escola, por não ter colocado a blusa na mochila (em pleno verão de 40º), por não estarmos presentes o tempo inteiro, por ir à academia quando poderia ficar com o filho, (por várias outras questões maiores como: não amamentar, parto, etc.).

2. Âmbito pessoal: por desejar um momento sozinha (como quando não éramos mães). Ou com as amigas. Ou por ficar cansada de tantas responsabilidades.

1. Âmbito moral: no episódio que foi ao ar sexta-feira (22/03), da novela Salve Jorge, a personagem de Giovanna Antonelli, a Helô, é dura na queda ao afirmar que não vai passar por cima de sua ética para ajudar o marido marginal da filha. Ela sofre. Pede um abraço para filha. A garota mimada do pai não cede e vai embora fazendo a mãe se sentir a pior mãe do mundo. Helô se questiona: Por que mãe se sente sempre culpada?

Começa que nós mulheres já somos complexas por natureza. Quando nos vemos em confronto com problemas morais e objetivos de vida, independente de sermos mães ou não, começam os conflitos. Parecemos uma fortaleza, mas sempre somos tomadas por sentimentos conflitantes, medo, insegurança e a danada culpa. Tudo em dobro quando adentramos à vida materna. Acredito que nem as mães que ficam 25h com as crias estão imunes a tal sentimento.

Existe o lance de julgamento e comparação. Depois que nos tornamos mães estamos sempre sendo julgadas, sempre tem alguém para apontar o dedo e dizer que você não devia ter feito assim, que do jeito assado era melhor. Além da comparação que os outros começam a fazer, nós mesmas, inevitavelmente, começamos a nos comparar com outras mães. A sua vizinha que é mãe, por exemplo, consegue dar conta da casa, do trabalho, do marido e de todos os compromissos do filho. E você ainda a vê todo sábado na pracinha brincando com a cria.

Tem também as mães que recriminam o que você faz. Eu, por exemplo, voltei ao trabalho após a licença maternidade e Benjamin foi, aos 5 meses, para o berçário. Senti culpa. E não precisava de ninguém me recriminando. Evitei dar ouvidos para comentários indiretos pra mim. Algumas vezes eu e marido damos uma fugidinha e deixamos Benjamin com a avó materna. Não me importo se comentarem. As pessoas que recriminam, em minha opinião, são as que sentem inveja pela sua coragem e esclarecimento em fazer algo certa de que aquilo não te torna uma péssima mãe.

É o mundo + você exigindo que você seja perfeita. Pergunto: devemos ser perfeitas? Existe a perfeição? Em minha opinião, não, não existe e não devemos nos cobrar essa perfeição. É preciso nos permitir alguns momentos a sós. Não há problema em desejar (e realizar) algo fora da maternidade. É preciso nos perdoar. Perdoar nossas falhas e erros – que fazem parte do nosso aprendizado e do que somos. Nossos filhos também deverão aprender a lidar tanto com nossas falhas, como com as falhas dos outros – aquelas que nós mães não poderemos evitar. A diferença está na maneira em como você vai lidar com a situação. E a maneira mais apropriada é ser franca com você e com os filhos, admitir sua falha, mostrar que você não é perfeita. Winnicott, psicanalista inglês, afirma que não existe mãe perfeita, que a mãe suficientemente boa é aquela capaz de identificar e atender as necessidades cruciais de seu filho, ou seja, é aquela capaz de assegurar amor, segurança, alimento. Seu filho não deve e nem precisa ser protegido de tudo. Só precisa do seu amor e apoio para aprender a enfrentar e se erguer diante das frustrações que a vida lhe apresentar.

A culpa é um sentimento pejorativo, mas pode servir como alerta. Sentir culpa é sinal de que somos preocupados com o resultado da ação que poderá afetar as pessoas à nossa volta. O ideal é usarmos esse sentimento para melhorarmos a vida seja no âmbito familiar, profissional ou pessoal. Segundo a psicanalista Suzana Grupnspun, membro da sociedade Brasileira de Psicanálise de SP, uma das minhas entrevistadas para a matéria “Culpa, sim”, o autoconhecimento em relação à culpa favorece um movimento de crescimento, mudando nossa compreensão e assim, modificando nossas atitudes e os nossos atos.

Para finalizar, respondendo a pergunta da delegada Helô: Por que mãe se sente tão culpada? Porque não podemos ser complacente a tudo. Porque não podemos corresponder a todas as expectativas. Porque não podemos ter sucesso em todos os campos de nossas vidas. Porque sentimos medo de não alcançar nossas funções/tarefas. Porque estamos preocupados com a cobrança da sociedade, com o que o outro vai pensar.

Enfim, ser mãe é um aprendizado constante. A partir do momento que os filhos nascem, a cada dia, nós nos transformamos como mãe.

*

Dicas

Leitura:

Leia a matéria “Culpa, Sim” em PDF: Pais e Filhos. Nela também indico alguns livros interessantes.

Em seu texto “A mãe perfeita“, publicado na revista Crescer, Marcelo Tas nos faz refletir sobre a importância de cair no desconhecido. Ou seja, para qualquer coisa nova que vamos realizar, é um risco, é um salto que não sabemos onde vai dar. Eu super adorei esse texto. Leia em PDF: A mãe perfeita

Filme:

Sentimento de culpa”, dirigido por Nicole Holofcner, conhecida por esmiuçar a alma feminina. Neste filme ela narra a complexidade de cinco mulheres de idades e personalidades diferentes diante de vários dilemas cotidianos.

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2 Comentários

  1. Tem hora que fica tudo tão difícil né. Mas basta um sorriso que tudo passa a valer a pena! Tenho procurado não me comparar com as outras pessoas, pois acredito que cada é cada um, isso ajuda muito na hora dos comentários maldosos, mas a autocobrança sempre vai existir e essa mata né?! Voltei a trabalhar esta semana e esta sendo muito difícil ficar longe, e para ajudar ele pegou uma virose… Mas vamos em frente que vai dar tudo certo!

    Responder
    • Sim, Mari, tem horas que nos sentimos impotentes. Essa volta ao trabalho é mesmo muito difícil, mas acredito que
      muito mais para nós. Ainda mais novo no assim. Mas acredite, é melhor enfrentarmos isso nessa idade do que adiarmos e começar mais tarde. Qto maiores, mais eles entendem e aí fica mais difícil ainda, sofremos o dobro ao vê-los sofrendo.

      Olha, todo mundo já deve ter te falado, depois q eles entram na escolinha pegam de tudo. Então, se prepare. Benjamin ficou doente na primeira semana. Depois ainda ficou mais algumas vezes, mas logo parou. Eles criam mesmo resistência. Ai menina, Benjamin pegou até sapinho!!!! Isso acabou comigo…..

      Mas nós vamos nos evoluindo como mãe….rs

      Fique bem!

      Beijo

      Responder

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