Coração de Pai

Martha Medeiros, em seu texto “Pequenas Felicidades”, diz: “Livro. Encantar-se com um autor que você não conhecia.” Em tempo (antes de o ano terminar), me encantei pelo jornalista José Ruy Gandra, pai dos meninos Paulo e Pedro.

O nome do livro já diz tudo. Esse é realmente um livro escrito com o coração. O coração de um pai. É repleto de sensibilidade, sentimento, histórias, emoção… Nele, Zé Ruy narra a relação profunda entre pai e filhos, irmãos, avô.

Enquanto nós mães tentamos descobrir táticas para o desfralde, só um pai é capaz de resolver o problema com “amiguinhos de chumbo”. Só um pai é capaz de ensinar valores como generosidade, lealdade e coragem com Heitor – o príncipe herdeiro de Tróia, sendo o pano de fundo. Só um pai para encarar com muito bom humor a puberdade, afinal tudo passa depois do primeiro “pelão preto”. Foi como disse Patrícia Poeta, “mesmo ao criar filhos, homens lidam com seus erros e acertos da única maneira que sabem: como homens”.

E Zé Ruy nos possibilita entrar nesse mundo. E acreditem, é surpreendente. Ele se despe e revela sentimentos com tanta coragem como não pensava nenhum homem ser capaz. Pai de dois filhos de mães diferentes, em ‘Bebê a bordo’, ele conta a separação da sua primeira esposa, mãe de Paulo, seu primogênito. E revela “as separações costumam se parecer com a morte”. Em ‘A dor sem remédio’ descobrimos que homens também aprendem a ser filhos depois da paternidade e o autor alerta “não espere sua mãe morrer para viver o seu amor por ela”.

Eu, na minha ignorância, andava pensando sobre essa coisa toda de como lidar com a questão de religião e filho, já que não sigo nenhuma propriamente dita. É impressionante como algumas vezes nossas convicções evaporam diante de tanta informação. Encontrei a melhor resposta nesse livro: “Deus é aquela poeirazinha do sagrado que habita os vãos dos detalhes. As gentilezas. Um dia de trabalho sereno. Estrelas no céu. A água quentinha a escorrer pelo corpo ao final de um dia extenuante. Deus para mim é isso – e, como disse Guimarães Rosa, “todas as outras coisas”.”

A importância de se ter um irmão. Eu tenho três e os amo infinitamente. E sei também que às vezes os corações ficam distantes. Em ‘Uma carta para os filhos’, Zé Ruy os avisa: “poucas coisas conseguem ser tão profundas quanto o amor de um irmão. Ombro algum é mais amigo. Mantenha, em seus corações, um lugar reservado para o outro. Descubram-se, amparem-se e fortifiquem-se reciprocamente.”

Eu fico até comovida só de relembrar esses trechos. O livro inteiro é uma grande lição. Eu já disse que tenho uma relação de amor com livros. Livros bons são aqueles que não basta ler, tem que ser capaz de nos tocar em algum desses aspectos: transportar-nos para lugares jamais viajados, nem que seja para o lugar mais recôndito dentro de nós, tem que nos fazer refletir, tem que nos surpreender, tem que nos provocar sentimentos, tem que nos emocionar.

Quando leio um livro que gosto muito, eu o carrego por dias na bolsa até conseguir me desprender. É o caso de Coração de Pai. Tenho andando com ele na bolsa, à noite eu pego folheio, leio algum trecho, abraço. Ainda estou num estado de comoção. Ele me tocou em todos os requisitos que um livro deve ter pra mim: viajei por todos os lugares que Ruy narra; viajei para dentro de mim e ainda não consigo achar que eu teria a força que Ruy teve com suas perdas; ando refletindo muito a respeito dessa força, das relações, da vida, as amizades, o amor; a história dele me surpreendeu e me provocou vários sentimentos, inclusive revolta – eu penso como Ruy e vários outros pais e mães, filhos não deviam partir antes dos pais e me entristece saber que eles partem. Assim como eles crescem “eis uma bela razão para que desfrutemos sua pureza e poesia enquanto ainda são pequeninos”, eles também partem e isso é uma verdade que não podemos mudar. E eu me emocionei muito…

É um livro de amor.

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5 Comentários

  1. Amanda

     /  4 de dezembro de 2012

    Que legal… Até fiquei c vontade se ler… Nas arrumo tempo onde??? Por sinal, como vc consegue tempo p ler tanto????

    Responder
  2. Marisa Del Roveri Fattor

     /  4 de dezembro de 2012

    sensível e tão verdadeira sua crítica!

    Responder
  3. Leda Valéria

     /  4 de dezembro de 2012

    Amei seu texto e me identifiquei muito com você. Entre outras coisas como o amor, andar com o livro na bolsa, pegá-lo a todo instante, demorar para se despedir quando o fechamos ao final da última linha. Esse livro é para sempre, não dá para esquecer nada, nadinha dele. Conheci o Zé Ruy no último sábado (1/12) e ele nem sabe que abracei também a sua dor, sua emoção, seus dias e noites sem o Paulo. Mas, talvez, fosse melhor nunca conhecê-lo, porque assim ele não teria motivo para estar na minha cidade lançando esse livro. Meu mantra de sempre: “Adoro você, Zé Ruy”.

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  1. Um presente especial de Natal para você « bossamae
  2. Retrospectiva 2012 Bossa Mãe « bossamae

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