Ter filhos traz felicidade?

Alertaram-me: a matéria de capa da revista Época dessa semana é pessimista, mas consegue ser salva ao final. Fui em frente com a leitura. Pasmei. Não consigo entender como as pessoas querem algumas mudanças, mas sem as responsabilidades que essas mudanças carregam.

Exemplo bobo: Queremos incansavelmente ser adultos, morar sozinhos, ser independentes, mas não queremos pagar contas e queremos de preferência que nossa mãe apareça em casa um dia sim outro também para organizar, lavar, fazer comida. Queremos casar, mas de preferência continuar com alguns programas que faziam parte da vida de solteiro. Desejamos ter filhos, mas sem acordar de madrugada, sem limpar bumbum sujo de coco, sem fazer mamadeira, sem ouvir choro, sem ter que lidar com birras, sem dar banho, sem ter que deixar de ter tempo pra você, sem dor de cabeça, sem preocupação, sem responsabilidade, sem nada! Como viver essas e outras possibilidades sem os impactos que elas carregam?!

O que as pessoas tem na cabeça? Não é possível que acreditem mesmo que a vida, em qualquer esfera: solteira, casado, materna, seja um mundo cor de rosa. Sempre temos que estar dispostos a abrir mão de alguma coisa. Outro dia li: “…se você casa para ser feliz, esqueça! Se contenha em fazer o outro feliz e também serás.” Se você tem filho achando que o mundo fica mais cor de rosa ou azul bebê, esqueça! O mundo real da maternidade tem noites em claro, tem bebê berrando (e provavelmente mãe também), tem casal em combustão com risco de explodir a qualquer segundo.

Sinceramente, não acho que precisa alguém para “desconstruir a maternidade do comercial de margarina”, pois como tudo na vida, nada é perfeito. Não é esse o meu objetivo, mas saiba: ter filhos é complicado, você nunca mais vai voltar a ser a mesma pessoa (esquece!), NUNCA mais vai ter um tempo só pra você (mesmo que seu filho fique na casa dos avós por algumas horas, dias, semanas…) sem pensar se deveria estar mesmo fazendo aquilo ao invés de estar passando momentos agradáveis com ele, NUNCA mais você vai dormir tranquila (e dizem que piora quando eles chegam na adolescência), após o nascimento você vai demorar para fazer sexo, aliás a vida sexual demora semanas, quiçá meses, para entrar nos eixos. Aliás², se prepare, porque vai parecer que tem uma bomba relógio entre você e seu marido. Eu não sei de quem tenho mais dó, se de nós mulheres que ficamos frágeis, incompreendidas e porque cabe a nós a maior parte de toda a função e não contam com a ajuda efetiva dos maridos. Ou do homem por ter que aturar nossas neuroses. O meu marido deveria ganhar um prêmio Nobel. (ok, assinei meu atestado de culpa)

Eu li o livro Eu era uma ótima mãe até ter filhos, citado na matéria. Ele traz inúmeros depoimentos de mães diferentes, algumas vezes bem humorado como menciona a reportagem, mas outras vezes pejorativo e pessimista demais para o meu gosto. No entanto, todas elas tem dois ou mais filhos. Se são tão infelizes porque será que não fecham a fábrica?! Eu não tenho muita paciência para tanto “mi mi mi”, tanta gente reclamando, tanta competição materna, tanto papo de mais ou menos mãe, etc, etc, etc. Não, você não é menos mãe porque desejou que seu filho fosse passar uns tempos na casa dos avós. Ou porque gritou com ele. Ou porque está sem paciência. Ou porque não quer mais ouvir choro. Ou porque em algum momento quis voltar nos tempos em que não era mãe. Pelo amor de Deus, nada disso é condenável. Mas sim, agora você é mãe e se ainda não amadureceu a ideia, precisa começar a encarar de forma mais positiva a nova realidade. Maturidade é algo que precisa ser adquirido. Responsabilidade também.

Já ouvi que não se pode pensar muito em ter filhos. Tipo, fazer contas, sabe? A conta nunca vai bater, logo você não vai ter filhos. E que também não se pode esperar muito: esperar ter o apartamento perfeito, o trabalho super bem remunerado, o carro da moda, ter feito todas as viagens dos seus sonhos, etc. Mas se você não quer mudar a sua vida em prol de outras, esqueça, não tenha filhos. Outro dia li uma frase que faz todo sentindo: “quem não está disposto a mudar suas rotinas para cuidar de seus filhos não os deveria ter”.

A matéria da revista questiona: ter filhos traz mesmo felicidade? Eu respondo com letras maiúsculas: SIM! Traz felicidade incalculável. Eu mesma, passado o encantamento pós-maternidade (aquele que nos coloca em um estado zen), me encontro numa fase que não consigo fazer nada, às vezes dá vontade de fugir, largar marido e filho porque me sinto num beco sem saída, no qual estou sendo espremida, sem tempo e espaço para fazer as minhas coisas. Uma pilha de livros sobe na minha cabeceira, milhões de ideias fervilham na minha cabeça quero colocá-las no blog e não consigo, quero acompanhar (e comentar) mais um monte de blogs, quero ver TV (meu Deus como quis assistir os capítulos finais da Carminha sem interferências do meu filho), quero escutar Marisa Monte e não a Galinha Pintadinha, quero conversar, quero encontrar amigas, quero simplesmente ficar sem fazer absolutamente nada. Os dias correm com uma velocidade inacreditável e na lista infindável de coisas que quero fazer, não quero perder nenhum momento com meu filho. Num outro texto lido recentemente afirmava: “Serás mãe por toda vida. Ele será criança só uma vez”. As noites que nos deixam exaustas, passam. (E as novelas podemos assistir às escondidas na internet)

A vida com filhos passa a ter muito mais significado, mesmo com tantas responsabilidades, fica cheia de pequenas-grandes conquistas, alegrias, surpresas. Os problemas ficam esmiuçados. Não existe por do sol, porque todos os dias, até o mais cinza, são iluminados. É algo imensurável. Filho dá coragem naqueles dias que você não está a fim de levantar da cama e encarar a vida (afinal, alguém tem que trocar a fralda do bebê). E como já disse Guimarães Rosa, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.

A matéria está aqui.

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15 Comentários

  1. Amanda

     /  25 de outubro de 2012

    É isso mesmo! Maternidade muda tudo! Vc nao tem tempo p mais nada, se estressa, discute c o marido, gasta um dinheirão… e ao mesmo tempo é a pessoa mais feliz do mundo!
    Nao lembro se vc já falou do assunto aqui, mas acho super valido falar sobre a amamentação… antes do bebe nascer te mostram q amamentar é viver no tal comercial de margarina, mas na hora q o negocio começa mesmo é complicado… O leite vaza toda hora na sua roupa e vc foca azeda, o bico do peito fica machucado, o bb nem sempre quer mamar, o intervalo de 3 horas entre cada mamada nao dá p nada (amamenta, troca a fralda, faz dormir… ai a mae faz um xixi, respira e já tem q amamentar outra vez). Acho a maior sacanagem do mundo o povo passar essa ideia de q amamentar maravilhoso… acho q é sim um ato de amor, pq só quem ama passa por tudo isso e nao se entrega de cara ao leite em pó… Mas nao é comercial de margarina nao!!! rsrs
    Bjo

    Responder
    • Amanda do céu, eu não lembrava, mas é VERDADE, a gente fica com um cheiro de azedo. Toma banho, mas daqui a pouco tá cheirando a leite novamente. Sabe que eu sentia e ficava incomodada pensando “será que todo mundo sente esse cheiro exalando de mim???”. Eca…rsrsrs

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  2. Pra variar, adorei o texto e já compartilhei no Face. Realmente acho que as pessoas têm direito de decidir se querem ou não querem ter filhos. Realmente, acho que há pessoas que não são aptas pra isso e às vezes se tornam pais por pura pressão da sociedade. Eu sou mãe de dois e sou mega-feliz assim…mas respeito quem não quer ter. Cada um na sua…respeito é bom demais, sempre.

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    • Paula, muito obrigada! Fiquei toda prosa com seu comentário. Penso como você, temos que respeitar. Mas também temos que reclamar menos, tentar encarar as coisas de um jeito mais leve, senão fica mais pesado. E filho é tudo de bom não é mesmo?!
      Um super beijo e obrigada pela visita e participação!

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  3. letícia

     /  25 de outubro de 2012

    Gostei muito do teu ponto de vista, mas também gostei muito da reportagem. Acho que o que eles quiseram demonstrar é que, muitas vezes, as pessoas ficam chocadas quando reclamamos ou demonstramos alguma infelicidade ou tristeza na maternidade, como se fosse obrigação ser feliz por tempo integral! Sou muito feliz em ser mãe, mas não podemos negar que existem muitos momentos que temos, sim, vontade de sumir!! 🙂
    parabéns pelo blog! te visito quase todos os dias! também compartilhei teu post no facebook!
    beijos, Letícia

    Responder
    • Pois é Letícia, mas nós sabemos que não é uma obrigação e não devemos nos punir por isso. Sei que é difícil, mas não devemos nos importar com o que os outros pensam a respeito, né?!
      Super beijo

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  4. Meo, amei!!! O que posso dizer? Gostei de todo o texto e de várias partes…assino cada frase embaixo. Já recomendei no face com a frase do Guimarães Rosa, então aqui vou destacar uma sua mesma Gabi, do tipo chega de lero-lero: “Sinceramente, não acho que precisa alguém para “desconstruir a maternidade do comercial de margarina”, pois como tudo na vida, nada é perfeito.” É bem por aí, concordo tanto, e vc usou tantos argumentos legais que não tenho o que acrescentar. Parabéns! Esse post entrou na galeria dos meus favoritos e quando pegar um mi mi mi por aí, agora tenho uma leitura obrigatória pra recomendar.rs

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  5. Sensacional! PErfeita a heterodoxia das emoções. Sim, eu também, “Por Deus, como queria ver televisão” – cara, só UMA TELEVISÃO! mas ao mesmo tempo, jamais abriria mão dos momentos inigualáveis com a minha bebê! parabéns pela precisão com as palavras que traduzem as emoções.

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  6. Mislene

     /  26 de outubro de 2012

    “…seus filmes se transformam em desenhos animados;
    …a temperatura do seu almoço não mais importa, na maioria das vezes ele esta frio;
    …seus banhos são rápidos e isso não tem nada a ver com a sustentabilidade do planeta
    …brinquedos fazem parte da decoração mas a disposição deles não é você quem decide;
    …o domingo amanhece mais cedo e você passa a dormir bem menos do que gostaria…”

    Ser mãe não é padecer no paraíso mas sim encarar o mundo real com outros olhos.
    Mas não existe nada mais sensacional do que ter filhos. ser mãe é o expoente máximo da realização de uma mulher.
    Não me identifico em nada com a maioria destes casais da reportagem que distorcem muito o que é ter um filho. Passam a imagem mais cruel da situação como se esta fosse a única, deixando de mencionar ou melhor dizendo, de ressaltar o significado grandioso que a vida passa a ter com a chegada de um filho. A reportagem é esclarecedora mas ao meu ver, ficou muito tendenciosa. Acho que a abordagem poderia ter sido mais balanceada,

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